O cancro do pulmão é a principal causa de morte por cancro a nível mundial, tanto em homens como em mulheres. Em Portugal, os dados do Registo Oncológico Nacional confirmam que é um dos tumores com maior incidência e mortalidade.

Uma das razões para este cenário é o facto de, em muitos casos, a doença se desenvolver de forma silenciosa durante anos, sendo diagnosticada apenas em estadios avançados, quando as opções terapêuticas são mais limitadas.

Conhecer os fatores de risco, reconhecer os sinais que merecem avaliação médica e perceber como funciona o processo de diagnóstico são passos essenciais para que a deteção precoce seja possível. É nessa janela (quando a doença ainda está confinada ao pulmão) que o tratamento tem maior probabilidade de ser eficaz.

Quais são os tipos de cancro do pulmão?

Os cancros do pulmão dividem-se em dois grandes grupos, com comportamentos e abordagens terapêuticas distintos:

Carcinoma de não pequenas células (CPNPC): representa cerca de 85% de todos os casos. Inclui o adenocarcinoma (o tipo mais frequente, com tendência crescente, especialmente em não fumadores), o carcinoma espinocelular e o carcinoma de grandes células. Cresce de forma mais gradual e, quando detetado precocemente, pode ser tratado com cirurgia.

Carcinoma de pequenas células (CPPC): menos frequente (cerca de 15% dos casos), mas com comportamento muito mais agressivo. Tende a disseminar-se rapidamente e raramente é diagnosticado em estadio localizado. Está fortemente associado ao tabagismo.

Esta distinção é clinicamente relevante porque determina a estratégia de tratamento mais adequada para cada caso.

Quais são os principais fatores de risco?

Tabagismo

O tabagismo é, de longe, o principal fator de risco para o cancro do pulmão, sendo responsável por cerca de 80 a 85% dos casos. O risco aumenta com a duração e a intensidade do hábito tabágico, mas não desaparece com a cessação: ex-fumadores mantêm um risco acrescido durante décadas, embora progressivamente inferior ao dos fumadores ativos.

O tabaco é, igualmente, o principal fator de risco modificável para as doenças cardiovasculares, o que reforça a importância da cessação tabágica como medida de saúde global.

O fumo passivo (a exposição involuntária ao fumo do tabaco) também aumenta o risco de cancro do pulmão em não fumadores.

 

Exposição a carcinogénios profissionais e ambientais

Radão: um gás radioativo de origem natural que se acumula em espaços fechados (especialmente caves e pisos térreos em determinadas regiões geológicas). É a segunda causa mais frequente de cancro do pulmão em não fumadores, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Amianto (asbesto): a exposição ocupacional ao amianto, frequente em construção civil, estaleiros navais e indústria, está fortemente associada ao mesotelioma e ao cancro do pulmão. O risco é particularmente elevado em trabalhadores fumadores expostos ao amianto.

Outros agentes: sílica cristalina, arsénio, crómio, níquel e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos estão também associados a maior risco em exposições ocupacionais prolongadas.

 

Poluição atmosférica

A poluição do ar exterior – classificada pela Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC) como carcinogénio do grupo 1 – está associada a um risco aumentado de cancro do pulmão, em particular do adenocarcinoma. Este fator é relevante sobretudo em contextos urbanos com elevados níveis de partículas finas.

 

Historial pessoal e familiar

Ter tido previamente cancro do pulmão aumenta o risco de um segundo tumor primário. A existência de familiares em primeiro grau com cancro do pulmão também está associada a maior suscetibilidade, independentemente do hábito tabágico, sugerindo uma componente genética no risco individual.

 

Doença pulmonar crónica

A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) e a fibrose pulmonar idiopática são condições associadas a maior risco de cancro do pulmão, mesmo após controlo do fator tabágico. O mecanismo exato não está completamente esclarecido, mas a inflamação crónica das vias aéreas parece desempenhar um papel relevante.

 

Sinais e sintomas que merecem avaliação médica

O cancro do pulmão é frequentemente assintomático nas fases iniciais, o que torna o rastreio e a vigilância tão importantes. Quando os sintomas surgem, podem ser inespecíficos e confundidos com outras condições respiratórias mais comuns. Os sinais que justificam avaliação médica incluem:

Tosse persistente ou com alteração das características habituais: uma tosse que dura mais de três semanas, que muda de caráter (mais seca, mais produtiva, com pieira) ou que surge em alguém que não costumava tossir merece investigação.

Hemoptises: a presença de sangue na expetoração, mesmo em pequena quantidade, é sempre um sinal que requer avaliação clínica urgente.

Dispneia progressiva: sensação crescente de falta de ar, sem outra causa aparente, especialmente quando se instala gradualmente e sem relação com esforço físico habitual.

Dor torácica: dor persistente no peito, ombro ou costas, sem causa traumática ou musculoesquelética identificada.

Rouquidão persistente sem causa aparente (infeção, uso intensivo da voz), especialmente se associada a outros sintomas respiratórios.

Sintomas sistémicos: perda de peso involuntária, fadiga persistente, falta de apetite e febres recorrentes sem causa identificada podem ser manifestações de doença oncológica em curso.

A presença de qualquer destes sintomas, especialmente em pessoas com fatores de risco conhecidos, justifica consulta médica sem demora.

 

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico do cancro do pulmão é um processo faseado, que combina imagiologia, análises e confirmação histológica. Nenhum exame isolado é suficiente, uma vez que o diagnóstico definitivo exige sempre confirmação por biópsia ou análise citológica.

Radiografia do tórax: muitas vezes o primeiro exame realizado. Pode revelar nódulos, massas ou alterações sugestivas, mas tem limitações na deteção de lesões pequenas ou em determinadas localizações.

Tomografia computorizada (TC) torácica: o exame de imagem de referência para avaliação pulmonar. Permite detetar lesões de menores dimensões, caracterizar a sua morfologia e orientar a estratégia diagnóstica.

Broncoscopia: permite a visualização direta das vias aéreas centrais e a recolha de biópsias ou lavagens broncoalveolares para análise. É especialmente útil em tumores localizados nas vias aéreas principais.

Biópsia: pode ser realizada por via broncoscópica, por punção transtorácica guiada por TC ou, quando necessário, por cirurgia. A análise histológica e molecular do tecido tumoral é essencial para determinar o tipo de cancro e orientar o tratamento.

PET-TC e outros exames de estadiamento: quando o diagnóstico é confirmado, são realizados exames complementares para avaliar a extensão da doença, incluindo a presença de metástases nos gânglios linfáticos ou noutros órgãos.

A análise molecular do tumor é hoje uma parte fundamental do processo de diagnóstico no CPNPC, porque determina a elegibilidade para terapias-alvo e imunoterapia.

 

Que tratamentos existem?

O tratamento do cancro do pulmão depende do tipo histológico, do estadio da doença, do perfil molecular do tumor e das condições clínicas de cada pessoa. As modalidades disponíveis são:

Cirurgia: é o tratamento de eleição nos estadios iniciais do CPNPC localizado. Pode consistir na remoção de um lobo pulmonar (lobectomia) ou, em casos selecionados, de uma ressecção mais limitada. Requer uma avaliação prévia da função pulmonar para confirmar que o doente tolera a intervenção.

Radioterapia: pode ser utilizada como tratamento primário (em doentes que não são candidatos a cirurgia), como tratamento complementar após cirurgia ou como radioterapia estereotáxica (SBRT/SABR) em lesões localizadas. A radioterapia de alta precisão permite administrar doses elevadas com impacto mínimo nos tecidos adjacentes.

Quimioterapia: continua a ter um papel relevante, quer em estadios avançados quer em associação com outras modalidades terapêuticas. Nos últimos anos, tem sido progressivamente complementada ou substituída por abordagens mais direcionadas.

Terapias-alvo: medicamentos que bloqueiam especificamente mutações driver identificadas no tumor (como os inibidores de EGFR ou ALK). São administrados por via oral e têm um perfil de tolerabilidade geralmente mais favorável do que a quimioterapia convencional.

Imunoterapia: fármacos que ativam o sistema imunitário para reconhecer e atacar as células tumorais. Os inibidores dos pontos de controlo imunológico (checkpoint inhibitors) tornaram-se uma opção terapêutica relevante em vários subtipos de cancro do pulmão avançado.

A decisão terapêutica é sempre multidisciplinar, envolvendo pneumologistas, oncologistas, cirurgiões torácicos, radioterapeutas e outros especialistas, e é adaptada ao perfil individual de cada doente.

 

Rastreio: para quem e quando?

O rastreio do cancro do pulmão com tomografia computorizada de baixa dose (TCBD) está recomendado para grupos de alto risco bem definidos. As principais sociedades científicas europeias e americanas recomendam a sua realização anual em adultos com todos os seguintes critérios:

Idade entre os 50 e os 80 anos (os critérios podem variar ligeiramente consoante as guidelines de referência).

Historial de tabagismo significativo: habitualmente definido como 20 maços-ano ou mais (por exemplo, 1 maço por dia durante 20 anos, ou 2 maços por dia durante 10 anos).

Fumador atual ou ex-fumador que cessou há menos de 15 anos.

O rastreio não é recomendado para a população geral, mas para este grupo específico de alto risco, a evidência disponível mostra que a deteção precoce reduz a mortalidade por cancro do pulmão de forma significativa. Se se enquadra neste perfil, deve discutir com o seu médico a pertinência de iniciar o rastreio.

O cancro do pulmão é uma doença com prognóstico muito diferente consoante o momento em que é diagnosticado. Nos estadios iniciais, a taxa de sobrevivência a cinco anos é significativamente superior à dos estadios avançados, o que torna a deteção precoce o fator mais determinante no resultado do tratamento.

Conhecer os fatores de risco, não ignorar sintomas persistentes e, quando indicado, realizar rastreio são as medidas mais eficazes ao alcance de cada pessoa. A cessação tabágica, em particular, é a intervenção com maior impacto na prevenção, não apenas do cancro do pulmão, mas de um conjunto alargado de doenças respiratórias e cardiovasculares.

Na CliniAlba, a consulta de Pneumologia permite a avaliação de sintomas respiratórios persistentes, a interpretação de exames de imagem torácica e o encaminhamento adequado para diagnóstico e tratamento, com uma abordagem clínica centrada na pessoa e baseada na evidência mais atual.