A psoríase afeta cerca de 2 a 3% da população mundial e é uma das doenças dermatológicas crónicas mais comuns. Apesar disso, continua a ser frequentemente mal compreendida, tanto pela sociedade como, por vezes, pelo/a próprio/a paciente.
Não é contagiosa, não é causada por falta de higiene e não desaparece com tratamentos pontuais: é uma doença inflamatória sistémica com expressão predominantemente cutânea, que exige acompanhamento médico continuado.
O que existe hoje, em termos de tratamento, é substancialmente diferente do que existia há vinte anos. As opções terapêuticas disponíveis permitem, na maioria dos casos, controlar a doença de forma eficaz e melhorar significativamente a qualidade de vida, desde que o diagnóstico seja correto e o tratamento adequado ao perfil de cada pessoa.
O que é a psoríase?
A psoríase é uma doença inflamatória crónica mediada pelo sistema imunitário, com carácter autoimune. O mecanismo subjacente envolve uma ativação anómala de células T do sistema imunitário que estimula a produção excessiva de queratinócitos (as células da epiderme).
Em pele saudável, o ciclo de renovação celular demora cerca de 28 dias, mas na psoríase esse ciclo pode comprimir-se para 3/4 dias, causando a acumulação de células na superfície antes de completarem a maturação normal, formando as placas características.
Esta aceleração da renovação celular, combinada com a inflamação subjacente, é responsável pelas lesões visíveis: placas avermelhadas cobertas de escamas brancas ou prateadas que podem surgir em qualquer zona do corpo, mas têm predileção por determinadas localizações.
A psoríase não é apenas uma doença da pele. A inflamação sistémica que lhe está subjacente associa-se a um risco aumentado de outras condições, nomeadamente artrite psoriática (que afeta as articulações), doenças cardiovasculares, síndrome metabólica, doença inflamatória intestinal e perturbações do humor.
Por isso, o acompanhamento desta doença vai além da gestão das lesões cutâneas.
Como se manifesta: tipos e localizações mais comuns
A psoríase não tem uma única forma de se apresentar. Existem vários tipos clínicos, com características distintas:
Psoríase em placas (a mais frequente): responsável por cerca de 80 a 90% dos casos. Manifesta-se em placas eritematosas (avermelhadas) bem delimitadas, cobertas de escamas esbranquiçadas ou prateadas. As localizações mais comuns são os cotovelos, joelhos, região lombar e couro cabeludo, mas pode surgir em qualquer zona do corpo.
Psoríase gutata: lesões pequenas, em forma de gota, distribuídas pelo tronco e membros. Surge frequentemente em crianças e adultos jovens, muitas vezes desencadeada por uma infeção estreptocócica (como amigdalite). Pode resolver espontaneamente ou evoluir para psoríase em placas.
Psoríase inversa: afeta as pregas cutâneas — axilares, inguinais, submamárias, umbilical. As lesões são avermelhadas e lisas (sem escamas), devido à humidade local. É frequentemente confundida com infeções fúngicas ou dermatite de contacto.
Psoríase pustulosa: caracterizada por pústulas (pequenas coleções de pus não infecioso) sobre pele avermelhada. Pode ser localizada — nas palmas das mãos e plantas dos pés (acropustulose) — ou generalizada, neste caso com potencial gravidade sistémica.
Psoríase eritrodérmica: forma grave e rara em que as lesões cobrem mais de 90% da superfície corporal, com vermelhidão intensa e descamação generalizada. Implica avaliação e tratamento urgente, habitualmente em contexto hospitalar.
Psoríase ungueal: afeta as unhas, causando alterações características: picotado ungueal (pequenas depressões na lâmina), onicólise (separação da unha do leito), manchas em “gota de óleo” e espessamento subungueal. Pode surgir isolada ou associada a outras formas de psoríase e é frequentemente um preditor de artrite psoriática.
Psoríase do couro cabeludo
A psoríase do couro cabeludo merece menção separada por ser uma das localizações mais comuns e, simultaneamente, uma das mais difíceis de tratar, tanto pela dificuldade de acesso à pele (o cabelo interfere com a aplicação de produtos tópicos) como pelo impacto estético e social que provoca. As lesões estendem-se frequentemente para a frente e os lados do couro cabeludo, sendo visíveis na testa, nas orelhas e na nuca. É frequentemente confundida com caspa severa, embora as duas condições sejam distintas.
Quais são as causas e fatores da psoríase?
A psoríase tem uma componente genética significativa: cerca de um terço das pessoas com psoríase tem familiares de primeiro grau com a mesma doença.
No entanto, a genética não determina o aparecimento da doença por si só e é necessária a interação com fatores ambientais e imunológicos para que se manifeste.
Os fatores que podem desencadear ou agravar a psoríase em pessoas predispostas incluem:
Infeções: especialmente infeções estreptocócicas das vias aéreas superiores (como amigdalite), particularmente associadas à psoríase gutata.
Stress emocional: um dos fatores desencadeantes mais frequentemente referidos pelos doentes. O stress não causa a doença, mas pode precipitar crises em pessoas predispostas.
Medicamentos: alguns fármacos podem desencadear ou agravar a psoríase, entre eles, o lítio, os betabloqueadores, os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), os antimaláricos e a cessação abrupta de corticoides sistémicos.
Trauma cutâneo: lesões na pele (cortes, queimaduras solares, tatuagens) podem desencadear o aparecimento de lesões psoriáticas no local do trauma (o chamado fenómeno de Koebner).
Álcool e tabaco: o consumo excessivo de álcool e o tabagismo estão associados a maior frequência de surtos e a pior resposta ao tratamento.
Obesidade: associada a pior evolução da doença e a menor eficácia de alguns tratamentos sistémicos.
Artrite psoriática: quando a inflamação afeta as articulações
Cerca de 20 a 30% das pessoas com psoríase desenvolvem artrite psoriática, uma doença inflamatória das articulações que pode surgir antes, durante ou após o aparecimento das lesões cutâneas.
Manifesta-se com dor, rigidez e inchaço articular, podendo afetar articulações periféricas (especialmente os dedos, em “dedo em salsicha”), a coluna vertebral e as enteses (inserções dos tendões nos ossos).
A artrite psoriática é frequentemente subdiagnosticada. Dor ou rigidez articular numa pessoa com psoríase cutânea, especialmente se matinal ou associada a fadiga, deve ser avaliada por reumatologista ou dermatologista com experiência nesta área. O tratamento precoce é importante para prevenir dano articular irreversível.
Opções terapêuticas: o que existe hoje?
O tratamento da psoríase evoluiu de forma significativa nas últimas duas décadas. Não existe cura, mas o controlo da doença é hoje possível para a grande maioria dos doentes quando acompanhados com o plano terapêutico certo, adaptado à gravidade, localização, impacto na qualidade de vida e comorbilidades de cada pessoa.
Tratamentos tópicos
Constituem a primeira linha de tratamento nas formas ligeiras a moderadas. Os principais grupos incluem:
Corticoides tópicos: anti-inflamatórios de aplicação local, eficazes no controlo rápido da inflamação e da descamação. Disponíveis em diferentes potências; o uso prolongado pode causar atrofia cutânea, pelo que o esquema de aplicação deve ser orientado pelo/a dermatologista.
Análogos da vitamina D (calcipotriol, calcitriol): reduzem a proliferação dos queratinócitos e têm efeito anti-inflamatório. Frequentemente utilizados em combinação com corticoides tópicos para potenciar o efeito e reduzir os efeitos adversos de cada um isoladamente.
Inibidores da calcineurina (tacrolimus, pimecrolimus): úteis em localizações sensíveis como a face, as pregas e a região genital, onde os corticoides não devem ser usados de forma prolongada.
Ácido salicílico: queratolítico, utilizado para remover as escamas e facilitar a penetração de outros tratamentos tópicos.
Fototerapia
A exposição controlada a radiação ultravioleta tem sido utilizada no tratamento da psoríase há décadas. A fototerapia UVB de banda estreita (NB-UVB) é atualmente a modalidade mais utilizada: eficaz, com bom perfil de segurança a curto e médio prazo, e particularmente indicada em psoríase extensa que não responde aos tópicos.
Realiza-se habitualmente em unidades especializadas, com sessões periódicas (geralmente três vezes por semana). A PUVA (UVA combinado com psoraleno oral ou tópico) é uma alternativa para casos selecionados.
Tratamentos sistémicos clássicos
Reservados para formas moderadas a graves, quando os tratamentos tópicos e a fototerapia são insuficientes:
Metotrexato: imunossupressor com longa história de utilização na psoríase; eficaz também na artrite psoriática. Requer monitorização laboratorial regular (hemograma, função hepática e renal). Contraindicado na gravidez.
Ciclosporina: imunossupressor de ação rápida, útil em surtos graves. Uso habitualmente limitado a ciclos curtos pela nefrotoxicidade associada ao uso prolongado.
Acitretina: retinoide sistémico, especialmente indicado nas formas pustulosas e eritrodérmicas. Contraindicado na gravidez e no período de possível conceção (até dois anos após a cessação, nas mulheres).
Terapêuticas biológicas
A grande transformação no tratamento da psoríase moderada a grave ocorreu com a introdução dos agentes biológicos, isto é, medicamentos produzidos por biotecnologia que atuam em alvos específicos da cascata inflamatória.
Ao contrário dos imunossupressores clássicos (que suprimem o sistema imunitário de forma ampla), os biológicos têm uma ação mais seletiva, com perfis de eficácia e segurança que revolucionaram a abordagem desta doença.
Os principais grupos disponíveis atualmente incluem:
Anti-TNF-alfa: os primeiros biológicos aprovados para a psoríase (adalimumab, etanercept, infliximab, certolizumab). Continuam a ser utilizados, em particular em doentes com artrite psoriática associada.
Anti-IL-17: secucinumab, ixecinumab, bimequizumab. Atuam na interleucina 17, uma das principais citocinas envolvidas na patogénese da psoríase. Apresentam taxas de clearance cutânea elevadas (muitos doentes atingem pele praticamente limpa) e boa durabilidade de resposta.
Anti-IL-23: guselcumab, risanquizumab, tildracizumab. Atuam na subunidade p19 da IL-23, um regulador chave da resposta Th17. Perfil posológico conveniente (algumas formulações com dosagem a cada 12 semanas após fase de indução) e eficácia muito elevada.
Anti-IL-12/23 (ustecinumab): atua em ambas as interleucinas; foi um dos primeiros biológicos de segunda geração aprovados para a psoríase.
Inibidores de JAK (jakinibs) e outros alvos orais
Os inibidores da via JAK-STAT representam uma nova geração de tratamentos orais para a psoríase moderada a grave. O deucravacitinib, um inibidor seletivo de TYK2, foi aprovado recentemente com resultados de eficácia relevantes e um perfil de segurança distinto dos inibidores JAK1/2/3.
Estes tratamentos ampliam as opções para doentes que preferem a via oral ou que não respondem ou não toleram os biológicos.
O impacto da psoríase na qualidade de vida
A psoríase não é apenas uma doença da pele; é uma condição que afeta a vida das pessoas de formas que vão muito além das lesões visíveis. O estigma social, a preocupação com a aparência, o prurido (comichão) persistente, a perturbação do sono e as limitações em contextos como a piscina, o ginásio ou a praia têm impacto real no bem-estar, nas relações e na saúde mental.
As taxas de depressão e ansiedade são significativamente mais elevadas em pessoas com psoríase do que na população geral e o impacto psicológico da doença é frequentemente subestimado nas consultas.
Uma abordagem terapêutica completa deve incluir a avaliação do impacto na qualidade de vida, através de instrumentos validados, e considerar suporte psicológico quando relevante.
Quando consultar um/a dermatologista?
Qualquer pessoa com lesões cutâneas persistentes, avermelhadas, descamativas e bem delimitadas deve ser avaliada por um/a dermatologista, especialmente se as lesões não melhoram com tratamentos tópicos comuns ou se surgem em localizações típicas (cotovelos, joelhos, couro cabeludo, região lombar).
O diagnóstico é habitualmente clínico, mas pode ser confirmado por biópsia quando necessário.
A psoríase é uma doença crónica, mas não é uma condição com a qual se deva simplesmente aprender a viver sem tratamento adequado. O panorama terapêutico atual oferece opções que, há duas décadas, seriam impensáveis, e a grande maioria das pessoas com psoríase pode hoje atingir um controlo da doença que não comprometia a vida quotidiana.
A chave está no diagnóstico correto, no tratamento ajustado a cada caso e no acompanhamento regular. A psoríase não se trata uma vez e se resolve: é uma doença de longo prazo que beneficia de uma relação continuada com um/a dermatologista que a conheça.
Na CliniAlba, a consulta de Dermatologia inclui avaliação clínica detalhada, diagnóstico diferencial rigoroso e orientação terapêutica adaptada ao perfil de cada doente, desde os tratamentos tópicos até à referenciação para terapêuticas sistémicas ou biológicas quando indicado.

