O cancro da mama é o cancro mais frequente nas mulheres a nível mundial e um dos que reúne mais evidência científica sobre o impacto da deteção precoce no prognóstico.

Quando diagnosticado numa fase inicial, as taxas de sobrevivência a cinco anos são muito elevadas, o que torna o rastreio regular e o autoconhecimento do próprio corpo duas das ferramentas mais concretas disponíveis para cada mulher.

Neste artigo, explicamos como funciona o rastreio do cancro da mama em Portugal, como realizar o autoexame de forma sistemática e eficaz, que alterações merecem avaliação médica e em que situações deve antecipar a consulta de ginecologia sem esperar pela próxima revisão programada.

Porque é que o rastreio faz diferença?

Os tumores detetados em estadios iniciais, quando ainda estão confinados ao tecido mamário e sem envolvimento ganglionar, têm opções de tratamento muito mais amplas e resultados significativamente melhores do que os diagnosticados em estadios avançados.

Porém, o cancro da mama pode desenvolver-se durante anos sem causar qualquer sintoma percetível. Um nódulo com menos de um centímetro dificilmente é detetável pela palpação, mas é visível numa mamografia de qualidade. É precisamente este intervalo, entre o aparecimento do tumor e a manifestação de sintomas, que o rastreio procura aproveitar.

O rastreio do cancro da mama em Portugal: o que existe e para quem?

O Programa Nacional de Rastreio do Cancro da Mama, coordenado pela Direção-Geral da Saúde, dirige-se a mulheres entre os 45 e os 74 anos e prevê a realização de mamografia de dois em dois anos. O convite é enviado diretamente às mulheres inscritas no SNS dentro desta faixa etária e o exame é realizado gratuitamente em unidades de rastreio distribuídas pelo país.

Este programa cobre a população de risco médio. Mulheres com fatores de risco elevado — historial familiar significativo, mutações genéticas identificadas ou outros condicionantes clínicos — podem necessitar de iniciar o rastreio mais cedo e com maior frequência, em articulação com a/o ginecologista ou com uma consulta especializada em risco oncológico.

É importante alertar que a participação no programa de rastreio do SNS não substitui a consulta ginecológica regular. São dois momentos complementares e ambos têm o seu lugar na vigilância da saúde mamária.

A mamografia: o exame de referência no rastreio

A mamografia é uma radiografia de baixa dose de radiação especificamente desenhada para avaliar o tecido mamário. Permite identificar nódulos, microcalcificações e outras alterações que podem não ser percetíveis na palpação, incluindo lesões precoces antes de terem expressão clínica.

É normal que exista alguma apreensão em relação à dose de radiação envolvida. A quantidade utilizada numa mamografia de rastreio é muito baixa e os benefícios da deteção precoce superam amplamente o risco residual associado à exposição, especialmente nas faixas etárias em que o rastreio é recomendado.

Relativamente ao desconforto, a compressão da mama durante o exame é necessária para obter imagens de qualidade com menor dose de radiação. Pode ser desconfortável, especialmente em mamas mais sensíveis, mas dura apenas alguns segundos por projeção.

Dica: marcar o exame para a semana após o fim da menstruação pode ajudar a tornar a experiência mais confortável.

E quando a mamografia não é suficiente?

A mamografia tem limitações em determinados contextos. Mamas com tecido muito denso dificultam a leitura das imagens, podendo esconder lesões. Nestes casos, a ecografia mamária é frequentemente pedida como complemento, especialmente em mulheres mais jovens, onde a densidade mamária é habitualmente maior.

A ressonância magnética da mama está reservada para situações específicas de alto risco, como portadoras de mutações BRCA1 ou BRCA2, ou para esclarecimento de achados indeterminados.

A/o ginecologista e a/o radiologista indicarão a combinação de exames mais adequada para cada caso.

Como fazer o autoexame da mama corretamente?

É importante reforçar que o autoexame não substitui a mamografia. O seu valor está em ajudar cada mulher a conhecer as suas próprias mamas, a reconhecer o que é normal para si e a identificar alterações que possam merecer avaliação.

É uma prática de autoconhecimento, complementar ao rastreio imagiológico.

Quando fazer?

O ideal é fazer o autoexame uma vez por mês, sempre na mesma fase do ciclo (preferencialmente entre o sétimo e o décimo dia após o início da menstruação, quando as mamas estão menos influenciadas pelas variações hormonais e tendem a estar menos ingurgitadas ou sensíveis).

Em mulheres na menopausa, escolher um dia fixo do mês facilita a regularidade.

O exame visual

Antes de palpar, observar. De frente a um espelho, com boa iluminação e em três posições: braços caídos ao longo do corpo, mãos na anca com leve pressão para tensionar a musculatura e braços levantados acima da cabeça. Em cada posição, deve observar o contorno das mamas, o aspeto da pele, a simetria (algum grau de assimetria é normal e habitual) e o mamilo.

O que observar?

  • Alterações no contorno ou no volume de uma mama
  • Pele com aspeto rugoso, enrugado ou com textura de “casca de laranja”

Retração ou desvio do mamilo, vermelhidão ou descamação na aréola.

A palpação

A palpação pode ser feita deitada ou no duche (a água e o sabão facilitam o deslizamento dos dedos). Usar a polpa dos dedos (e não as pontas), com os três dedos centrais juntos, em movimentos circulares pequenos e sistemáticos.

Aplicar três níveis de pressão em cada ponto: leve (para a camada superficial), médio e firme (para o tecido mais profundo).

O movimento deve cobrir toda a mama de forma organizada, da axila até ao centro do peito, de cima para baixo, garantindo que nenhuma zona fica por avaliar. Deve incluir sempre a região axilar e a área entre a mama e a clavícula. Também deve ser verificado o mamilo: apertar suavemente e observar se existe qualquer secreção.

Dica: ao deitar, colocar uma almofada sob o ombro do lado que se está a examinar e elevar o braço desse lado acima da cabeça. Isto distribui o tecido mamário de forma mais homogénea e facilita a palpação, especialmente em mamas de maior volume.

Que alterações merecem avaliação médica?

A grande maioria das alterações detetadas no autoexame ou na mamografia são benignas: quistos, fibroadenomas, alterações fibroquísticas, entre outras. Isso não significa que devam ser ignoradas; o que não deve acontecer é deixar uma alteração nova sem avaliação médica por receio do que se possa encontrar.

Nódulo ou espessamento novo: qualquer massa palpável que não existia antes, especialmente se for dura, de contornos irregulares ou não dolorosa à palpação. Os nódulos benignos tendem a ser móveis e de bordos bem definidos, mas a distinção exige sempre avaliação especializada.

Alterações da pele: espessamento, rugosidade ou aspeto “casca de laranja” numa área localizada; retração ou covinha na pele; vermelhidão persistente sem causa aparente.

Alterações do mamilo: retração ou desvio do mamilo que surgiu recentemente (não uma característica de sempre); secreção espontânea, especialmente se for unilateral, de cor sanguinolenta ou serosa, sem compressão do mamilo.

Gânglios axilares palpáveis: nódulos na axila que não estavam presentes anteriormente, especialmente se persistirem após a resolução de qualquer infeção recente.

Dor localizada persistente: a dor mamária é muito frequentemente benigna e relacionada com variações hormonais do ciclo. Mas uma dor que persiste num local específico, independente do ciclo e sem causa identificável, merece ser avaliada.

Fatores de risco: quando o rastreio deve ser personalizado?

O risco de cancro da mama não é igual para todas as mulheres. Existem fatores que podem justificar uma abordagem de rastreio diferente da prevista para a população geral:

Historial familiar: ter uma mãe, irmã ou filha com cancro da mama, especialmente se o diagnóstico ocorreu antes dos 50 anos ou se houver mais do que um caso na família, aumenta o risco individual e justifica avaliação personalizada.

Mutações genéticas (BRCA1 e BRCA2): as mulheres portadoras destas mutações têm um risco cumulativo muito superior ao da população geral. O rastreio neste grupo inclui habitualmente ressonância magnética anual e mamografia, com início mais precoce.

Historial pessoal: mulheres com diagnóstico anterior de hiperplasia atípica ou carcinoma lobular in situ têm maior risco de desenvolvimento de cancro invasivo e devem ter vigilância mais próxima.

Densidade mamária elevada: mamas com maior proporção de tecido glandular têm menor sensibilidade da mamografia. A ecografia complementar é frequentemente indicada nestes casos.

Terapêutica hormonal de substituição (THS) prolongada: o uso de THS combinada (estrogénio e progestativo) por mais de cinco anos está associado a um aumento moderado do risco, que deve ser ponderado individualmente com a/o ginecologista.

Se qualquer um destes fatores se aplica, a consulta de ginecologia é o ponto de partida para definir uma estratégia de rastreio adequada ao risco individual.

Os quistos na mama aumentam o risco de cancro?

Os quistos mamários simples são alterações benignas muito comuns e não aumentam o risco de cancro da mama. São habitualmente relacionados com variações hormonais e na maioria dos casos não requerem tratamento, apenas vigilância.

Deve fazer um rastreio de cancro da mama se tiver menos de 40 anos?

Fora de contextos de risco elevado, a mamografia de rastreio não é recomendada antes dos 45 anos. O autoexame regular e a consulta ginecológica anual (que inclui a palpação clínica das mamas) são as medidas adequadas nesta faixa etária. Em caso de alteração detetada, a ecografia mamária é habitualmente o primeiro exame solicitado em mulheres jovens.

Os homens também podem ter cancro da mama?

Sim, embora seja muito menos frequente (representa cerca de 1% de todos os casos de cancro da mama).

No entanto, qualquer nódulo palpável na região mamária num homem deve ser avaliado.

Quando marcar uma consulta de ginecologia?

A consulta de ginecologia deve ser marcada sem demora excessiva nos seguintes casos:

Deteção de qualquer alteração nova no autoexame, mesmo que não cause dor ou preocupação imediata.

Nunca ter feito uma mamografia e ter mais de 45 anos ou ter fatores de risco que justifiquem rastreio mais precoce.

Historial familiar de cancro da mama sem avaliação de risco realizada e sem plano de rastreio personalizado.

Ter recebido o convite do programa de rastreio do SNS e ainda não ter aderido.

Qualquer dúvida sobre a saúde mamária, mesmo que os sintomas pareçam pouco significativos. A maioria das alterações tem explicação benigna, mas essa tranquilidade só pode ser dada por um/a profissional com acesso ao exame clínico e, se necessário, à imagiologia.

O rastreio do cancro da mama não é um exame a fazer com medo, mas sim uma rotina a integrar com naturalidade. A mamografia bienal, o autoexame mensal e a consulta ginecológica anual formam uma rede de vigilância que maximiza a probabilidade de detetar qualquer alteração numa fase em que a intervenção é mais simples e os resultados são melhores.

Conhecer as próprias mamas, saber o que é normal e reconhecer o que mudou é uma forma de cuidado que está ao alcance de qualquer mulher e que pode fazer toda a diferença.

Na CliniAlba, a consulta de Ginecologia inclui a avaliação clínica da mama, a orientação para rastreio adequado ao perfil de risco individual, a requisição de exames complementares quando indicados e o acompanhamento ao longo do tempo, com uma abordagem centrada na mulher e na sua história clínica.