Como escolhe os seus óculos de sol? Se seguir a lógica da maioria das pessoas, valoriza o estilo dos óculos (e a relação com o formato do seu rosto) e o preço. A proteção ocular raramente é o primeiro critério.

Um par de óculos escuros sem filtro UV adequado pode ser mais prejudicial do que não usar óculos de todo. A razão é simples: as lentes escuras levam a pupila a dilatar-se (como acontece em condições de pouca luz), aumentando a quantidade de radiação UV que penetra no olho caso o filtro seja insuficiente. O efeito estético de proteção existe, mas a proteção real não.

Escolher bem os óculos de sol é, por isso, uma decisão de saúde ocular tanto quanto de estilo. Este artigo explica o que deve verificar, o que significam as marcações nas etiquetas e quais os erros mais comuns a evitar.

Por que é que a radiação UV é prejudicial para os olhos?

A radiação ultravioleta não afeta apenas a pele: os olhos são estruturas particularmente vulneráveis à exposição solar crónica. A córnea absorve a maior parte da radiação UVB, enquanto o cristalino acumula radiação UVA ao longo dos anos. Esta acumulação tem consequências diretas e progressivas.

A exposição UV crónica está associada ao desenvolvimento e progressão de catarata (opacificação do cristalino), à fotoqueratite (equivalente ocular de uma queimadura solar, que provoca dor, fotofobia e lacrimejo intenso) e ao pterígio, um crescimento anormal de tecido conjuntival que pode progredir para a córnea e afetar a visão.

Há também evidência científica que associa a exposição solar acumulada a um maior risco de degeneração macular associada à idade, uma das principais causas de perda de visão irreversível em adultos com mais de 50 anos. A proteção UV precoce e consistente é, neste contexto, uma medida preventiva com impacto real a longo prazo.

A boa notícia é que um par de óculos com proteção UV adequada, usado regularmente, é suficiente para bloquear a radiação prejudicial e reduzir significativamente estes riscos.

O que verificar antes de comprar óculos de sol?

A marcação UV400 e a norma CE
A marcação mais importante a procurar é UV400, que indica que os óculos bloqueiam 100% da radiação UV com comprimentos de onda até 400 nm, ou seja, toda a radiação UVA e UVB. Esta é a proteção mínima recomendada por oftalmologistas e pela Organização Mundial de Saúde.

Nos óculos comercializados na Europa, a marcação CE (acompanhada do número 12312-1, referente à norma EN ISO 12312-1) indica que o produto cumpre os requisitos de segurança estabelecidos pela regulamentação europeia.

A ausência desta marcação é um sinal de alerta: pode indicar que os óculos não foram sujeitos a qualquer certificação de qualidade ou proteção.

Atenção: a cor escura das lentes não é indicadora de proteção UV. Lentes muito escuras sem filtro adequado são mais perigosas do que lentes claras, precisamente porque dilatam a pupila sem oferecer proteção real. A cor e a tonalidade das lentes são independentes do nível de proteção UV.

As categorias de filtro solar (0 a 4)
Os óculos de sol são classificados em cinco categorias (de 0 a 4), de acordo com a quantidade de luz visível que as lentes transmitem:

Categoria 0: transmitem entre 80% e 100% da luz — são lentes quase transparentes, adequadas para uso interior ou em condições de muito pouca luminosidade. Não são óculos de sol propriamente ditos.

Categoria 1: transmitem entre 43% e 80% da luz — adequados para dias nublados ou com pouca luminosidade.

Categoria 2: transmitem entre 18% e 43% da luz — adequados para luminosidade média, como dias com sol intermitente.

Categoria 3: transmitem entre 8% e 18% da luz — a escolha mais comum para uso quotidiano em dias soalheiros, praia ou campo.

Categoria 4: transmitem entre 3% e 8% da luz — destinam-se a condições de luminosidade extrema, como alta montanha ou glaciares. Não são adequados para condução, uma vez que reduzem excessivamente a perceção de contraste em situações normais.

Para a maioria das situações do dia a dia em Portugal, a categoria 3 é a mais adequada. Em contextos de alta altitude, neve ou reflexo intenso de água, a categoria 4 pode ser necessária.

O tamanho e cobertura da armação também importam

A proteção oferecida pelos óculos de sol não depende apenas das lentes; a armação desempenha um papel importante. Óculos com lentes pequenas ou com armações abertas nas laterais deixam entrar radiação UV pelos ângulos não cobertos, especialmente quando o sol está oblíquo.

Armações de maior cobertura lateral, ou com formato envolvente (wrap-around), reduzem a entrada de luz pelas laterais e protegem também a zona periocular (pálpebras, canto interno e externo do olho), uma das regiões de pele mais fina do corpo e com maior risco de lesões associadas à exposição solar.

Para crianças, em particular, a cobertura da armação é ainda mais relevante: os olhos das crianças transmitem mais radiação UV para a retina do que os olhos de adultos, porque o cristalino ainda não atingiu a sua maturação plena. Óculos de sol com boa cobertura lateral e certificação UV400 devem ser usados desde cedo e de forma consistente.

Que tipos de lentes existem e para que servem?

Lentes polarizadas
As lentes polarizadas reduzem o brilho e os reflexos provenientes de superfícies horizontais como água, estradas molhadas ou neve. Melhoram o conforto visual e a definição de contraste, sendo especialmente úteis para atividades aquáticas, condução e desporto.

É importante perceber que polarização e proteção UV são características independentes. Uma lente pode ser polarizada sem ter proteção UV adequada, e vice-versa. Ao escolher lentes polarizadas, deve confirmar que também cumprem os requisitos UV400.

Lentes fotocromáticas
As lentes fotocromáticas (também chamadas “transitions”) adaptam a sua tonalidade em função da quantidade de luz UV presente no ambiente: tornam-se mais escuras ao ar livre e mais claras em espaços interiores. São uma opção prática para quem usa óculos graduados e não quer alternar entre dois pares.

A limitação principal é o comportamento no interior de automóveis: os vidros do carro filtram grande parte da radiação UV, o que pode impedir a ativação completa das lentes em dias de sol durante a condução.

Lentes para desporto e atividades ao ar livre
Para prática desportiva, as lentes devem ser resistentes ao impacto (idealmente em policarbonato ou Trivex) e ter boa aderência à face para evitar escorregamento. Em desportos aquáticos, é aconselhável combiná-las com armação de tipo envolvente para reduzir a entrada de luz lateral e o reflexo da água.

Os erros mais comuns ao escolher óculos de sol

Escolher apenas pelo preço ou pela estética: óculos de baixo custo sem certificação adequada podem oferecer proteção insuficiente. O preço elevado, por outro lado, não garante automaticamente proteção UV (é necessário verificar sempre a marcação).

Confiar na cor escura das lentes: como explicado anteriormente, a tonalidade das lentes não é indicadora de proteção UV. Esta é uma das confusões mais comuns e pode ter consequências reais para a saúde ocular.

Negligenciar os óculos em dias nublados: até 80% da radiação UV atravessa as nuvens. A ausência de sol direto não elimina a necessidade de proteção ocular, especialmente em períodos prolongados ao ar livre.

Ignorar a proteção das crianças: os olhos das crianças são mais permeáveis à radiação UV do que os dos adultos. O uso de óculos de sol desde a infância é uma medida preventiva com benefícios cumulativos ao longo da vida.

Usar óculos danificados ou riscados: lentes com riscos profundos alteram a qualidade ótica e podem comprometer tanto a acuidade visual como a proteção. Óculos danificados devem ser substituídos.

E quem usa óculos graduados?

Quem usa óculos de correção tem várias opções para não prescindir da proteção solar:
Óculos de sol graduados: a solução mais prática, especialmente para quem passa muito tempo ao ar livre. Requerem receita médica atualizada e podem ser fabricados em praticamente qualquer tipo de lente.

Lentes fotocromáticas graduadas: adaptam-se à luminosidade e eliminam a necessidade de alternar entre dois pares, embora com a limitação já referida na condução.

Clip-on ou sobreponíveis: soluções que se adaptam sobre os óculos de correção existentes. Práticas e económicas, mas com menor cobertura lateral.

Lentes de contacto com filtro UV + óculos de sol: algumas lentes de contacto têm proteção UV incorporada, mas não substituem os óculos de sol porque não protegem as estruturas oculares periféricas (pálpebras, conjuntiva, zona periocular).

Os óculos de sol certos protegem; os errados podem criar uma falsa sensação de segurança. A diferença está nos detalhes: a marcação UV400, a categoria de filtro adequada à utilização prevista, a cobertura da armação e a qualidade das lentes são os critérios que devem orientar a escolha, antes do modelo ou da cor.

Na CliniAlba, a consulta de Oftalmologia inclui a avaliação do estado de saúde ocular e orientação personalizada sobre proteção solar, adequada ao perfil visual e às necessidades de cada pessoa.